
Eu tenho uma amiga que se chama Jussara. Ela tem câncer. Ela tem vida. Ela tem uma energia enorme, acabou de fazer sua terceira cirurgia e hoje fui vê-la no hospital. Quando cheguei dei um beijo gostoso nela e sentei do seu lado. Senti o morno de suas bochechas e seus cabelos eram como um escorregador por onde meus dedos deslizavam. Lisos, sem nós, limpos. Exatamente como a percebo. Estar ali foi um dos melhores momentos da minha vida nos últimos dias. Deu-me calor, me encheu de amor, me deu prazer.
Parece estranho dizer isso quando falo de uma amiga que está tratando de uma doença silenciosa e rápida? De uma doença que não quer dar trégua pra ela? Parece e é. Mas o mais louco é sentir, no meio disto tudo, que ela nunca esteve tão viva, tão presente, tão lúcida. E que sua lucidez e presença potencializam em mim a vontade – e necessidade – de ser criativa, de escrever, de me expressar sem medo. Mas e será que ela tem medo? Acho que tem. Mas não a paralisa. O medo a move. O amor a move. Seus filhos a movem.
Hoje, no quarto 469, do hospital Moinhos de Vento estranhamente me senti num encontro de amigas, previamente marcado, onde conversas rolaram, olhares se marcaram e a vida pareceu mais colorida. Como em teu sonho, Ju. Eu vi tuas flores amarelas, a entrada do viaduto, a ausência da tua calcinha e o quarto vermelho.
Pra mim o amarelo é uma fenda, uma abertura, pra algo novo. Quem sabe um sol. A entrada do viaduto pode ser um caminho com voltas, às vezes meio fechado, mas que invariavelmente quase toca o céu. Por onde se desce com os vidros do carro abertos, pra que o cabelo voe e a brisa provoque um arrepio. A falta de uma calcinha? Penso que é a liberdade que a gente tanto quer, de não se preocupar com nada e andar por aí aproveitando a vida. E o quarto vermelho é explosão, loucura, delírio, morfina. Pode ser uma dor velha que volta e te expõe à ferida, pode ser o sangue todo que tu recebeste dos teus amigos... Pode ser o amor das tuas irmãs, da tua mãe, do teu irmão, da cunhada, da sobrinha, do sobrinho, do Alemão, da Giulia, do Gabi, do Tiago, do Mateus e aaahhhhh!!!!!!!!!!!!! De todo mundo que te ama. E é gente pra caralho!
Eu tenho uma amiga que se chama Jussara. Ela tem câncer. É veterinária. É mãe, mulher, bonita. Ela tem um pedacinho de fígado. Ela é guerreira, mas prefere assumir que é frágil e que precisa de carinho. Ela tem mais vida em suas veias do que qualquer um de nós.
