
Sou uma colecionadora de idéias sobre o que escrever. Ultimamente coleciono temas interessantíssimos, mas não escrevo nada. Absolutamente nada. A vontade vem, passa e a coleção aumenta. Minha cabeça é uma vasta estante cheia de títulos com capas vermelhas, letras estilizadas, páginas com bordas douradas e cheias de pó. Minha avó tinha vários livros assim, bonitos e sem uso.
E o que havia dentro de cada livro? Não sei, pois retirá-lo da prateleira era proibido, assim como parece impossível eu permitir o espaço para o que sinto aflorar. A biblioteca foi interditada. É censura sobre censura. Obra com cadeado. Pensamento sabotado. E assim não sei a quem recorro pra me ajudar a arrombar esta porta, limpar as cadeiras e mesas, abrir as cortinas, desnudar as estantes e libertar as palavras guardadas. É e necessário achar um jeito porque sentimento retido apodrece e sala onde não entra sol, tudo mofa. E não posso conviver com isto. Sou alérgica. Alérgica inclusive a produtos anti-mofo. Minha pele coça, meus olhos ardem e se não escancarar minhas idéias, alucino.
Não quero aumentar minha coleção. Quero que cada livro seja lido e após sua leitura dê espaço ao próximo. Quero idéias expostas, abertas, reticentes. Diretas ou indiretas, tanto faz. Mas que tenham a virtude de me abrir o coração. Quero um livro independente da cor de sua capa, do tipo ou tamanho de fonte, que me venha com a palavra exata, sem mofo.
Mas parece, agora, que arrebentei o cadeado e arrombei a porta. Vejo que os móveis ainda estão sujos, mas com delicadeza e paciência limpo tudo. A biblioteca está aberta. É só entrar.

Vem aqui ler oslivros proibidos da casa da vovó
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